Love Quinn e a representação das mulheres na mídia
Muito discute-se a respeito da visão de mundo predominante no que tange a imagem das mulheres nas mídias, principalmente com o avanço de movimentos feministas, que trouxeram questionamentos edificantes para as massas. Em "Séries: o livro", é citado que nas últimas temporadas de Game of Thrones não havia mulheres na sala de roteiro e, por consequência, as personagens femininas acabaram tiranizadas ou tratadas como tolas e vítimas. Isso reflete em "You", série lançada pela Netflix em 2018. A produção, composta majoritariamente por homens, optou por representar Love Quinn (Victoria Pedretti) a partir de uma ótica sexista, embaçando ainda mais o imaginário de uma sociedade já deturpada em sua estrutura.
Segundo Márcia Tiburi, filósofa autora do livro "Feminismo em comum: para todas, todes e todos", ‘’A misoginia está presente quando se associa as mulheres à loucura, à histeria, à natureza – como se houvesse uma predisposição que conferisse a elas uma inconfiabilidade natural, originária’’. Em consonância com essa linha de pensamento, os roteiristas de "You'' decidiram fazer uma comparação desigual entre Love Quinn e Joe Goldberg (Penn Badgley), o protagonista da série. Desde a primeira temporada, Joe apresenta comportamentos extremamente violentos e obsessivos, que o levam a controlar a vida de seus interesses amorosos, até eventualmente matá-las por nunca conseguir atingir seu ideal de amor inalcançável. Na narrativa apresentada na produção, Joe é considerado metódico e controlado, soltando sua persona apenas quando lhe convém. Em contrapartida, Love Quinn é apresentada como uma personagem impulsiva, ciumenta e descontrolada por fazer exatamente as mesmas coisas que seu companheiro faz. Revela-se, então, como a ausência de diversidade de gênero na equipe de produtos culturais contribui negativamente para a construção de uma sociedade, mesmo em representações de situações atípicas e repulsivas, como o homicídio. Nesse sentido, reforça-se a ideias como a culpabilização da amante frente à infidelidade do marido, evento que ocorre na história através de punição, separando as mulheres em sua luta coletiva.
Além disso, é perceptível que "You" trata o amor como a ação da violência e da posse, mascaradas de misericórdia, deturpando a ideia real do sentimento. Mesmo com a evidência de que os personagens são pessoas desequilibradas e doentias, é perceptível a tentativa da série de humanizar - e quase justificar - os atos do personagem principal, a figura masculina, enquanto o mesmo não acontece com a mulher. Dessa forma, a parcialidade misógina dos roteiristas é desmarcarada, revelando a intenção de firmar o privilégio masculino dentro dos discursos do dia-a-dia. De fato, a não inclusão de mulheres no processo criativo de produtos audiovisuais trouxe consequências prejudiciais para o avanço da perspectiva e ressignificação de estigmas. Ainda que existam muitas situações semelhantes a "You" na indústria audiovisual, existem alas progressistas que clamam pelo espaço das mulheres dentro das narrativas. É o que acontece com "Garota Exemplar", filme baseado na obra homônima de Gillian Flynn, onde a protagonista Amy Dunne (Rosamund Pike) tem suas camadas devidamemte exploradas, sendo colocada em uma posição equiparada ao seu marido Nick, no que diz respeito a ambiguidade de caráter e desenvolvimento de personagem. Talvez, quando abrirmos os olhos para o propósito político dos papéis de gênero, que permitem que homens controlem a história real e ficcional, a representação feminina será bem colocada, desconfigurando a visão intempestiva da mulher apontada por Tiburi.
Por: Lucas Pichinine




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